01/06/2026

Mais de 2,8 mil municípios brasileiros enfrentam vulnerabilidade climática

O avanço das mudanças climáticas e a necessidade de preparar as cidades para eventos extremos estiveram no centro dos debates do seminário promovido pelo Fórum de Desenvolvimento Estratégico da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) nesta segunda-feira (01/06). Especialistas alertaram para o aumento da vulnerabilidade climática dos municípios brasileiros e defenderam medidas de adaptação, como ampliação das áreas verdes, redução de riscos e fortalecimento da cooperação entre os entes públicos.

A coordenadora do Fórum, deputada Tia Ju (REP), ressaltou o papel do colegiado na articulação entre especialistas, gestores públicos e sociedade para antecipar desafios e planejar respostas aos efeitos das mudanças climáticas. “A construção de soluções duradouras passa pelo diálogo, pelo conhecimento técnico e pela cooperação entre diferentes setores, especialmente diante dos desafios climáticos que impactam diretamente a vida dos fluminenses”, declarou.

Já o subdiretor do Fórum, Frederico Lima, alertou para os impactos cada vez mais frequentes das mudanças climáticas no estado. “No Rio de Janeiro, os efeitos da crise climática já são uma realidade, com enchentes, ondas de calor, crise hídrica e degradação ambiental. O desafio agora é transformar esse diagnóstico em respostas eficazes, adaptativas e socialmente justas”, destacou.

Mudanças climáticas desafiam planejamento das cidades

Dados apresentados durante o seminário apontam o avanço da vulnerabilidade climática no país. Segundo levantamento do Governo Federal e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), 2.807 municípios brasileiros já estão em situação de alta vulnerabilidade a eventos extremos, como enchentes, deslizamentos e ondas de calor.

Ao abordar o cenário, o climatologista Carlos Nobre alertou para o aumento das temperaturas globais desde 2023 e destacou que a retirada da vegetação nas áreas urbanas tem intensificado a formação das chamadas ilhas de calor. Segundo ele, regiões com pouca cobertura vegetal podem registrar temperaturas entre seis e onze graus mais altas do que áreas arborizadas.

Como alternativa, Nobre defendeu a ampliação do reflorestamento urbano, a implantação de telhados verdes e o conceito de “cidades-esponja”, voltado para aumentar a absorção da água da chuva e reduzir os impactos de eventos climáticos extremos. “Com muita vegetação e telhados verdes, podemos reduzir a temperatura entre seis e dez graus nos dias mais quentes, protegendo principalmente idosos, crianças e pessoas mais vulneráveis”, afirmou.

O pesquisador também lembrou a tragédia da Região Serrana do Rio, em 2011, e reforçou a urgência de políticas públicas voltadas à redução de riscos e à adaptação das cidades diante do avanço das mudanças climáticas.

Felipe Mandarino, coordenador de Operações do Instituto Pereira Passos, defendeu o fortalecimento da articulação entre municípios e o Governo do Estado para ampliar as ações de adaptação climática. “É fundamental garantir capacidade técnica, recursos e coordenação para que cidades de diferentes portes possam enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas”, destacou.

Crise hídrica

Os impactos das mudanças climáticas sobre os recursos hídricos e a infraestrutura urbana do Rio de Janeiro deram sequência ao seminário em outro painel. Os debatedores reforçaram a necessidade de integrar conhecimento científico, planejamento urbano e políticas públicas para fortalecer a segurança hídrica no estado.

O especialista em regulação de recursos hídricos da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Lucas Cordeiro, apresentou estudos que apontam a redução da disponibilidade hídrica em bacias estratégicas, como a do Rio Paraíba do Sul, além do aumento da frequência de secas e chuvas intensas. Segundo ele, as projeções indicam queda nas vazões de rios essenciais para o abastecimento fluminense, tornando indispensável a incorporação dos riscos climáticos ao planejamento hídrico e urbano.

Já o diretor da Hidrostudio Engenharia e professor da USP, Aloísio Canholi, destacou experiências de drenagem urbana no Rio de Janeiro e defendeu a combinação de obras de infraestrutura com soluções baseadas na natureza para reduzir os impactos das enchentes. Entre os exemplos citados estão os reservatórios da Praça da Bandeira, as intervenções no Canal do Mangue e o projeto de controle de cheias do Jardim Maravilha, em Guaratiba.

Inundações

A gestão de riscos e os investimentos em infraestrutura foram apontados como fundamentais para ampliar a resiliência dos municípios diante de eventos extremos. O especialista em Gestão de Risco de Desastres da Secretaria de Estado de Defesa Civil, Major Wellington Silva de Oliveira, ressaltou a importância da prevenção, do monitoramento permanente e da integração entre planos de contingência.

“A responsabilidade pela redução dos riscos é compartilhada entre diversas áreas da administração pública”, afirmou.

O professor da Escola Politécnica da UFRJ, Matheus Souza, que representou o professor da COPPE/ UFRJ Paulo Canedo, destacou os desafios da gestão das bacias hidrográficas e da ocupação urbana na Baixada Fluminense, defendendo que o crescimento das cidades considere as áreas sujeitas a inundações e sistemas de drenagem.

A importância do monitoramento climático, do planejamento antecipado e do mapeamento de risco para orientar a implantação de equipamentos públicos foram pontos levantados pelos dois convidados, que também mencionaram a revisão dos planos diretores municipais como oportunidade de incorporar critérios de adaptação climática.

Planejamento urbano e soluções sustentáveis

O uso de dados espaciais, inteligência artificial e sensoriamento remoto para apoiar políticas de adaptação climática foram pontos trazidos pelo professor adjunto do Instituto de Geografia da UERJ, Patrick Kuchler. Ele abordou estudos sobre ilhas de calor, áreas verdes e regiões vulneráveis a inundações e deslizamentos, além de um projeto desenvolvido no Jacarezinho que integra análises técnicas com participação da comunidade que ali vive.

“Precisamos de dados técnicos de qualidade, mas também da participação comunitária para transformar conhecimento em políticas públicas eficazes”, afirmou.

Encerrando os debates, o coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da UVA, Carlos Murdoch, defendeu o planejamento de longo prazo e a construção de cenários futuros para orientar as decisões sobre infraestrutura, mobilidade, habitação e desenvolvimento econômico. Os participantes reforçaram que a adaptação climática deve estar associada à redução das desigualdades sociais e cooperação entre academia, poder público e sociedade civil viabilizando a justiça climática.

Fotos: Alex Ramos

Texto: Comunicação Social Alerj em parceria com a Comunicação do Fórum da Alerj

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